Por que só aparece gente fraca quando a vaga abre?
A vaga está aberta há semanas e só chega currículo fraco. O dono já tem a explicação pronta: a cidade é ruim, a área é difícil, ninguém mais quer trabalhar. Por que só aparece gente fraca quando a vaga abre?
Na live Papo Estratégico, Fernando Campanholo, o Campa, conta que essa é a queixa que mais ouve dos empresários, e que ele mesmo passou anos preso nela. Para ele, quase sempre o problema não é nada disso. "Tem muita gente boa no mercado", diz. O desafio é achar essas pessoas.

Quinze anos com vaga aberta
O que mais preocupa Campa é a substituição: o funcionário não performa, incomoda, e o dono não demite porque não quer passar de novo pelo processo de contratar. "Esse ciclo de não querer substituir uma pessoa que você não aguenta mais na tua empresa porque não consegue contratar tem que acabar."
Na primeira empresa, de sistemas de gestão, aberta em 1995, a vaga ficava meses aberta e ele segurava as pessoas por medo de não conseguir repor. Foram 15 anos assim. Até que entendeu que contratar só era difícil porque fazia do jeito errado, como diz a frase que leva no pulso: se está difícil, está errado.
A ficha caiu quando lembrou de quando era funcionário. Era bom, subia de cargo e recebia muitas ofertas. Com muitas, nem quis conversar: "Aquelas empresas não me passavam confiança".
Contratar não é comprar, é vender
Tem empresário que abre vaga como quem vai comprar um quilo de batata. "Contratar não é comprar. Contratar é vender", diz Campa. Quem compra não precisa convencer ninguém. "Quando eu vou vender, eu tenho que mostrar para o meu cliente por que que ele tem que comprar comigo."
Outro conceito separa os profissionais em dois tipos: o bom, que todo mundo quer, e o mediano. Como ninguém quer contratar um funcionário fraquinho, o bom escolhe onde vai trabalhar. O mediano trabalha "onde escolhem ele. Ou seja, onde aceitam ele". Campa avisa que não está acusando ninguém, mas tira a consequência: se a empresa é feita de gente mediana, ninguém está escolhendo trabalhar nela.
Empresa boa contrata bons profissionais, empresa mediana contrata funcionários medianos.
Campa
A culpa é da cidade?
Um mentorado, que presta um serviço especializado numa cidade bem pequena, quis convencer Campa a todo custo de que o problema era a cidade: a população diminui, o salário é baixo, os bons vão embora. Campa faz a todo empresário que reclama a mesma pergunta: qual é a pior cidade do Brasil para contratar? A resposta é sempre a dele, seja ela pequena, seja uma grande capital. Com o ramo, a mesma coisa. E Campa já viu empresário de cidade com 2.000 habitantes passar a contratar.
A frase "os bons vão embora" entregou a resposta: se vão, existem. "Eles não enxergam oportunidade na cidade." A vaga era de vendedor, com meta ousada, e a pessoa ainda tinha de cobrar quem não pagasse, carregar caixa e limpar banheiro, por um salário mínimo. "Cara, tá explicado por que que ninguém quer a tua vaga", disse Campa. O dono olhava para a cidade. O bom profissional da cidade olhava para a vaga.
A vaga precisa parecer boa
Quando a empresa não contrata, ou contrata errado, Campa vê três fatores: a vaga é ruim, a empresa é ruim de trabalhar, ou a vaga é boa mas não chega aos bons. Do outro lado, o bom profissional passa a oportunidade por três filtros, e qualquer um deles mata a contratação.
O primeiro é a vaga: ela está à altura de quem ele é hoje? Às vezes a vaga paga bem e tem jornada legal, mas o anúncio não mostra. "Não adianta ser boa, ela precisa parecer ser boa." Salário pesa: quem quer gente boa tem de pagar bem. Mas o anúncio inteiro precisa vender a vaga: o que promete, o que cobra, as oportunidades, os benefícios, como é a empresa.
E nada de contratar no desespero, quando o funcionário de oito anos já está cumprindo os 30 dias. O certo é ter pronta antes a descrição de cargos e responsabilidades, o plano de carreira e o anúncio magnético, aquele que o bom olha e pensa: "Opa, esse é para mim".
O que o candidato descobre da sua empresa
O segundo filtro é a empresa. O bom pesquisa antes de mandar currículo: conversa com funcionários e ex-funcionários, olha Google, LinkedIn, Instagram. E acha a última postagem desejando feliz 2024, site com erro, e-mail sem o domínio da empresa, gente que entrou na justiça para receber. Conta também se alguém responde o currículo e como ele é recebido. Tudo isso, para Campa, é impressão.
Campa recusou, como funcionário, uma oferta que dobrava o salário. Na empresa, encontrou desorganização, gente de cara feia, um xingando o outro. "Posso ganhar mais, eu vou descer meu nível aqui."
Onde o bom profissional vai ver a sua vaga
O terceiro filtro é o que quase todo mundo erra: o caminho até o bom. Na urgência, a vaga vai uma vez para o Instagram da empresa, sem impulsionar. Com 2.000 seguidores, nas contas de Campa, ela aparece para 10, 15, 20 pessoas no máximo, e quem segue a empresa quer fazer negócio com ela, não trabalhar nela.
O exercício é descobrir onde o profissional que você quer procura oportunidade na sua cidade e na sua área. E lembrar que os bons não estão procurando, estão trabalhando. O anúncio tem de estar onde eles passam o tempo.
Organizar a empresa atrai gente boa
Campa deixa uma pergunta para o dono:
Se você fosse esse profissional que você quer para sua empresa e você visse a sua vaga hoje, você ia querer se candidatar?
Campa
E, ao chegar e ver o clima, as pessoas, a organização, ia querer trabalhar ali? Se a resposta for não, diz ele, já se sabe por onde começar: mexer na vaga e mexer na empresa.
Um mentorado contou no grupo do Strats que só organizou a empresa e começou a aparecer gente pedindo emprego, o que nunca tinha acontecido. Para Campa, a organização aparece para o mercado. No Strats, o tema entra no pilar de pessoas comprometidas, com um roteiro de contratação, porque contratar errado custa caro e quem paga é o dono: rescisão, nova seleção, treinamento e, muitas vezes, ele mesmo cobrindo quem falta.
O empresário sol, no centro de tudo, resolve a falta de gente sozinho. Quando sai do centro, ganha tempo para tornar a empresa atraente para gente boa. Para Campa, é isso que faz a empresa crescer sem depender do dono para tudo.
Momentos da live
- 05:40 Segurar quem não serve por medo de contratar
- 10:36 Contratar não é comprar, é vender
- 12:08 O bom profissional escolhe onde vai trabalhar
- 13:42 A pior cidade para contratar é sempre a do empresário
- 16:06 A vaga de vendedor que ninguém queria
- 20:19 Os três filtros do bom profissional
- 29:57 Você se candidataria à sua própria vaga?
Leia também Como Atrair Bons Profissionais para a sua empresa e Quem deve se adaptar: sua equipe à empresa ou sua empresa à equipe?
A live Papo Estratégico acontece toda terça, ao meio-dia, com um tema por edição. Receba o aviso das próximas lives.



