Quem deve se adaptar: sua equipe à empresa ou sua empresa à equipe?
Você contrata alguém para o atendimento. A pessoa é agradável, trabalha bem, só não sabe fazer orçamento. Para não perder o talento, você tira o orçamento dela e passa para alguém de compras ou da produção. Algumas contratações depois, ninguém sabe quem faz o quê. Esse puxadinho leva a uma pergunta: é a empresa que se adapta à equipe ou a equipe que se adapta à empresa?
No podcast Pausa Estratégica, quando Cris pergunta se esse arranjo é bom, Fernando Campanholo, o Campa, responde que não tem como ser. Ele dá nome ao que acontece ali: "Eu estou adaptando a minha empresa para as pessoas que estão vindo". Campa avisa que só fala do que vê no dia a dia, e Cris lembra que os dois têm clientes em todos os estados do Brasil.

Como a empresa vira um puxadinho
Campa conta a origem. Alguém vai bem numa função e um dia sai. Na hora de repor, não existe descrição de cargo, nem processo de seleção criterioso. Contrata-se quem mostrou uma boa característica e, no que a pessoa não sabe fazer, alguém de uma função distante passa a cobrir.
A outra porta de entrada é o pedido de demissão. O funcionário avisa que vai sair porque não gosta de uma tarefa, o dono tira a tarefa para ele ficar, e o trabalho cai no colo de um colega. Para Campa, é a lógica do empresário apagador de incêndio: contrata e só depois vai ver no que a pessoa é boa.
O risco do funcionário que faz tudo
Cris descreve o caminho pelo acúmulo. A pessoa entra para fazer o caixa, fica boa, passa a comprar, a vender, cobre férias, vira gerente. Há empresário que diz que a empresa não depende dele porque tem um gerente. Cris discorda: "Toda aquela carga, aquele mochilão de pedra que estava nas costas do empresário, vai para as costas de uma única pessoa na empresa". Quando essa pessoa sai, ninguém sabe tudo o que ela fazia.
Campa vai à causa: "Toda a cultura de uma empresa é sempre de cima para baixo". Se o dono centraliza e guarda com ele qualquer microdecisão, a equipe se espelha nele e faz igual. Repor alguém fica cada vez mais difícil, porque a vaga passa a pedir uma pessoa multitarefa.
"Não tem gente boa para contratar"
Campa ouve essa frase sempre. Quando olha a vaga, encontra o pedido de um multitalento: alguém que saiba comprar, instalar, consertar e cobrar. Quem escolheu ser técnico estuda para ser um técnico melhor, não para cobrar nem para vender. Uma vaga assim atrai quem investe na própria carreira ou quem pega qualquer coisa?
Ele aponta três motivos para a vaga não fechar. A vaga exige muito e paga pouco. A vaga é boa, mas foi divulgada errado ou no lugar errado. Ou a empresa é bagunçada, todo mundo apaga incêndio e acha isso normal. "Tem dois tipos de pessoas: aquelas que escolhem onde vão trabalhar e aquelas que são escolhidas", diz Campa. Os bons comparam propostas e olham o todo, não só o salário. Quem não é escolhido pelas boas oportunidades vai para a empresa que diz sim, e é para essa pessoa que o dono adapta a empresa.
Mesmo cargo, tarefas diferentes
Campa ressalva que ninguém precisa fazer uma coisa só. As tarefas é que precisam ter afinidade com o cargo. Vendedor alimenta o CRM, faz proposta, faz follow-up. "Eu não posso pegar um vendedor e mandar o cara fazer cobrança, tirar nota, fazer marketing. Por quê? Porque eu estou dando muletas para essas pessoas", explica. No dia de chuva, sem paciência para prospectar, o vendedor senta e acha cobrança para fazer. E o dono já não consegue cobrar a meta de vendas.
Com o tempo, a empresa tem gente no mesmo cargo com rotinas diferentes. Campa cita um empresário com 30 e poucos funcionários em que, pela conta dele, cerca de 90% da equipe estava registrada como auxiliar administrativo. Um comprava, outro era gerente, outro vendia, outro era técnico. Além do risco trabalhista, fica difícil desenhar o organograma, que para Campa serve para mostrar quem é chefe de quem.
Descrição de cargos e responsabilidades: o cargo vem antes da pessoa
O outro cenário é o do empresário estrategista. No método que Campa e Cris ensinam, a ordem é pessoas comprometidas, processos padronizados e só então escala. Campa ensina a descrever o cargo junto com a responsabilidade:
- Responsabilidade. Pelo que essa pessoa tem de zelar na empresa.
- Resultados. O que ela tem de entregar, em números. Número é fato, não opinião.
- Tarefas. O que precisa ser feito para chegar a esses resultados.
- Pessoa ideal. As competências, os conhecimentos e as habilidades de quem vai entregar isso.
Você descreve o cargo, faz uma descrição de cargos e responsabilidades e contrata a pessoa que se encaixa exatamente nesse cargo. É a pessoa que se adapta à empresa, e não a empresa que se adapta à pessoa.
Campa
Cris acrescenta uma regra para a seleção: "Quanto mais não eu tenho, mais perto eu estou do sim". Cada concessão para a pessoa caber vira uma troca em 30, 45 ou 60 dias. É dessas trocas que nasce a ideia de que não existe gente boa.
Preciso demitir todo mundo para organizar?
Cris faz a pergunta do dono que já tem cada um fazendo uma coisa. Campa responde que não. O primeiro passo é mapear, tarefa que ele passa logo a quem entra no Strats. Se há cinco auxiliares administrativos, levanta-se o que cada um faz. Depois o dono ajusta os cargos e redistribui as tarefas. Sem isso não há como padronizar nem comparar o trabalho de duas pessoas.
Também não há rotina de resultado, que Campa define como a relação do que a pessoa tem de fazer, quando, como e por quê. Ela é do cargo, não do João nem da Maria. A falta dela aparece num teste: "Eu vou na empresa e pergunto para todo mundo: você está aqui para quê? As pessoas não sabem responder". Respondem com tarefas, não com responsabilidade ou resultado.
Para Cris, com a documentação na mão, quem chega pensa: "Aqui eu sei o que é o meu trabalho, aqui eu sei o que eu tenho que fazer". Nas empresas dos dois, conta ela, a equipe pergunta pelo processo antes de começar uma tarefa.
Contratar devagar, demitir rápido
Campa compara contratação com casamento: ninguém pede em casamento um desconhecido na rua. Contratar errado custa treinamento, encargos, tempo e a produtividade que não veio. A regra dele cabe em uma linha: contratar devagar e demitir rápido.
Por trás da regra está o que ele chama de relação de equilíbrio, salário em troca de resultado. Quando um empresário do Strats hesita diante de alguém que entrega 70% do combinado, Campa pergunta se o funcionário aceitaria receber dois no dia 5, e não os três acertados. A resposta, conta ele, geralmente é nunca. "É uma troca justa. Eu te pago três para você me entregar isso", conclui. A troca de pessoa vem depois de conversar, treinar e revisar os próprios processos.
Quanto menor a empresa, mais fácil de organizar
O ganho de ter a equipe adaptada à empresa é a escala. Com resultado padronizado, dá para multiplicar um setor, abrir filiais, franquear. Campa separa isso de robotizar: para ele, as pessoas são únicas. A quem deixa a organização para quando crescer, ele responde que, na empresa grande, "não é que se tornou fácil porque ele ficou grande. É porque ele fez ficar fácil quando era pequeno". Dá para corrigir em qualquer porte, mas custa mais e leva mais tempo.
No fim, Campa deixa uma pergunta: você está moldando a sua equipe ou são as pessoas que estão moldando a sua empresa?
O estratégico de uma empresa não fica abandonado. Alguém toma conta.
Campa
Quando o dono larga a parte pensante do negócio e vai para o operacional, quem ocupa o lugar é o colaborador, o cliente, o fornecedor, o mercado. Cris traduz: "Se você não é o estrategista da tua empresa, você é o funcionário da tua empresa, e alguém vai ser o estrategista". Para Campa, ser estrategista "é ter clareza da estrutura, é ter clareza de onde quer chegar e do caminho para chegar lá".
Momentos do episódio
- 01:54 Quando a empresa se adapta à pessoa
- 10:46 A muleta do vendedor que também faz cobrança
- 18:32 Descrição de cargos e responsabilidades
- 21:17 Por que parece que não tem gente boa para contratar
- 30:45 Mapear e redistribuir as tarefas
- 40:28 Contratar devagar, demitir rápido
- 55:02 O estratégico não fica abandonado
Para continuar no assunto, leia também Como Atrair Bons Profissionais para a sua empresa e Processos na Empresa: Por que é Importante ter?.
Se a sua empresa foi se moldando a quem chegou e hoje você não sabe dizer o que cada cargo deve entregar, o convite do Campa no fim do episódio é fazer uma Reunião de Diagnóstico com um especialista da Viva Positivamente. Agende a sua reunião.



