Troque líderes executores por líderes que lideram
Você promoveu o melhor vendedor a gerente comercial, ou o funcionário mais antigo a encarregado. Ele ganhou o cargo e a rotina não mudou: continua com a mão na massa, resolvendo o pepino do dia, e as decisões voltam todas para a sua mesa. Essa é a diferença entre o líder que executa e o líder que lidera.
A convidada de Campa e Cris no podcast Pausa Estratégica é Patrícia Y Agopian, cofundadora e CEO da Bússola Executiva, escola de formação de líderes executivos que já formou mais de 8.000 líderes. Patrícia fez carreira no mundo corporativo, de assistente a diretora, antes de fundar a empresa com os sócios.

Qual é o papel do dono da empresa
Cris descreve os degraus que uma empresa sobe. No começo é o dono e mais um ou dois, com muito trabalho operacional, e isso está certo. Depois vem a equipe, e começa a ficar apertado. No terceiro patamar entram os primeiros líderes, cada um responsável por um setor, e mais adiante o líder dos líderes.
Para Campa, o problema aparece quando o dono não acompanha essa subida. "Empresário que desce para o operacional, desce para o tático, muitas vezes tendo equipe para isso, está negligenciando a sua principal responsabilidade", diz. Essa responsabilidade é definir aonde a empresa vai chegar e como vai chegar lá. Patrícia reforça: "Toda vez que eu dependo de um indivíduo, eu já limitei o crescimento."
Por que o dono não consegue soltar
Campa aponta um motivo: o ego de ser quem mais resolve, quem apaga os incêndios. Quando outra pessoa começa a fazer isso, dá ciúme. "Eu fui aquele apagador de incêndio que fazia tudo, que a empresa não funcionava sem mim", conta ele. Quando percebeu que não precisavam mais dele para tudo, veio um vazio, a sensação de ser inútil. Depois caiu a ficha: esse é o jeito certo.
É o que ele ouve dos empresários no Strats, o programa de estruturação empresarial da Viva Positivamente. O dono tinha um líder no setor, mas ficava em cima, cobrando, com medo de soltar. Um dia soltou, e o setor passou a funcionar melhor do que quando ele estava lá. Então ele era incompetente? Campa responde que não. Aquele líder só tem aquele setor para cuidar.
Você, como dono do negócio, tem que pensar em crescimento, em escala, em modelo, em oportunidades. A tua cabeça está cheia. Ser inteligente é isso: é eu começar a ter gente resolvendo as coisas que antes eu resolvia.
Campa
O erro de promover o melhor executor a líder
Campa vê dois erros se repetirem. O primeiro é a falta de clareza: o empresário não sabe dizer o que espera de um líder. Quer alguém que resolva incêndios e pepinos, com pouca atenção para a equipe. Assim, só passa o peso do próprio ombro para o ombro de outro.
O segundo erro é o jeito de escolher. O cargo vai para o colaborador mais antigo ou para o melhor executor: o melhor vendedor vira líder do comercial. Quem recebe o convite pensa em duas coisas, ganhar mais e ter mais status, e não percebe o tamanho da mudança. "Antes, no papel de executor, ele era cobrado pelos resultados dele. No papel de liderança, vai ser cobrado pelos resultados da equipe", explica Campa.
Patrícia confirma: em empresa pequena, média ou grande, as pessoas são jogadas na liderança. "Liderança não é talento natural. Liderança é uma habilidade que se desenvolve", diz. Sem preparo, o promovido vira o que ela chama na Bússola de líder executor, que desce para o operacional para entregar. Cris traz outra situação: "Tem gente que coloca o líder para testar se ele vai ser um bom líder, mas não conta para ninguém que ele é líder."
Líder que faz o trabalho da equipe não é exemplo
Patrícia conta uma cena de quando trabalhava na área de compras. Numa visita, o novo CEO pergunta pelo gerente da loja. Ele estava na reserva, colocando alarme nas peças, enquanto havia cliente sem atendimento, fila no caixa e produto mal exposto. O recado do CEO: o trabalho do gerente é garantir que a operação funcione, e não executar a operação.
Muito líder, seja funcionário ou dono, acredita que a equipe tem orgulho de vê-lo fazendo tudo. Campa pensa o contrário. O funcionário ruim olha e acha graça: está sendo pago, e o chefe faz o trabalho no lugar dele. O funcionário bom, comprometido, sente pena. "A gente tem pena de quem? De quem a gente admira? Não", provoca.
Para mim, um líder é uma pessoa que os liderados têm que olhar para cima e pensar assim: eu queria ser que nem aquele cara. Agora, alguém vai olhar para um coitado e dizer: eu queria ser igual a ele?
Campa
O papel do líder, para ele, é apoiar a equipe na solução, sem dar o caminho e sem fazer no lugar dela. Cris usa uma imagem com os líderes no Strats: "Vou te colocar uma algema, porque daí você não vai fazer, você vai ter que dar um jeito de ensinar os outros a fazer."
Vale a pena abrir os números para a equipe?
Campa tem um apelido para o dono que não compartilha nada: "Tem empresário que eu chamo de James Bond." Não reúne os líderes para falar de metas e problemas, e faturamento é tabu, por medo de pedido de aumento. Campa responde que a equipe já faz as contas dela, e normalmente erradas, porque não enxerga custo nem despesa. Sem número, meta e plano na mesa, ninguém consegue ajudar.
A cultura que ele defende é a inversa do "me chama que eu resolvo": não me traga problema, me traga solução. E cultura vem de cima para baixo. Cris faz uma ressalva: a ideia que o líder traz precisa combinar com o que a empresa busca naquele momento, e para isso o dono tem de dizer para onde a empresa vai. Sem critérios claros, diz ela, vira uma torre de Babel.
Campa dá um teste para saber se alguém se sente parte do negócio. Quem fala "vocês" e "a tua empresa" se vê de fora. Quem fala "nós temos um plano" já está conectado. "É uma diferença muito grande entre me sentir peça e me sentir parte."
Como atrair gente boa para a empresa
Ao dono que reclama de não achar gente boa, Campa devolve a pergunta: por que a sua empresa só está atraente para esse tipo de pessoa? O bom profissional escolhe onde vai trabalhar. Por isso ele insiste, no Strats, que contratar não é compra. "A contratação é uma venda", afirma. E não é só salário: nas empresas em que tem sociedade, conta, há muita gente boa sem os melhores salários, por causa de oportunidade de crescimento, ambiente e cultura.
Campa conta que, quando contrata, uma das primeiras coisas que diz ao candidato é o propósito: melhorar a economia do Brasil através do verdadeiro empreendedorismo. Se aquilo não mexe com a pessoa, o lugar dela não é ali. Cris lembra que o CNPJ é mesa, cadeira e parede. "Quem faz essa empresa acontecer são os CPFs que estão ali."
Equipe pequena não é o que limita o faturamento
Campa pergunta o tamanho da equipe e o faturamento da Bússola Executiva: 22 pessoas e 12 milhões por ano. Muito dono acredita que não fatura mais porque a equipe é pequena. "Não é questão de equipe pequena, é questão de estratégico", afirma: fazer pausas estratégicas, definir para onde a empresa vai, engajar a equipe e ter processos.
Campa separa trabalho duro de trabalho burro, aquele que insiste num processo que não funciona. Campa e Cris usam uma pulseira com o mantra "se tá difícil, tá errado". O desafio é tornar fácil o que é difícil, porque o fácil pode ser replicado. Cris chama isso de trabalho de preguiçoso: "Eu sou preguiçosa. Eu não gosto de ficar pensando todo dia a mesma coisa." Com rotina e processo, ninguém começa de uma folha em branco.
Na despedida, Patrícia fala ao dono que não sabe dar feedback. Está tudo bem não saber, diz ela, e indica Campa e Cris: "Se eu não sei fazer, eu procuro quem pode me ensinar."
Momentos do episódio
- 06:17 O papel do empresário e o risco de descer para o operacional
- 10:18 Campa conta quando era o apagador de incêndio da empresa
- 21:59 Os dois erros na hora de escolher um líder
- 32:20 Por que o líder que faz tudo desperta pena, e não admiração
- 39:08 O empresário James Bond e o tabu do faturamento
- 48:05 Contratar é venda, não compra
- 1:09:27 Trabalho duro, trabalho burro e "se tá difícil, tá errado"
Para continuar no assunto, leia também Como Liderar uma Equipe do Jeito Certo e Como Delegar de Forma Eficaz.
Se na sua empresa os líderes ainda executam e as decisões continuam chegando a você, o convite de Cris no fim do episódio é fazer uma Reunião de Diagnóstico com um especialista da Viva Positivamente. Agende a sua reunião.



