Não adianta só crescer. Precisa fazer a empresa não depender de você para tudo.
Mais clientes, mais faturamento, mais equipe, mais líderes. Muito dono de empresa aposta que, no dia em que a empresa crescer, o problema financeiro some, o operacional se resolve e ele finalmente fica em paz. A empresa cresce, e ele trabalha mais do que antes. É o crescimento que vira armadilha.
Fernando Campanholo, o Campa, abre a conversa no podcast Pausa Estratégica dizendo que esse pensamento equivocado já foi dele e da Cris. Quem pensa assim, explica, espera que tudo se resolva por mágica e passa a se eximir da própria responsabilidade, que é fazer a empresa funcionar.

Crescer resolve os problemas da empresa?
Campa responde com a frase que repete o episódio inteiro: "O crescimento potencializa aquilo que a empresa já é". Empresa com padrões, cultura e clareza do que a equipe precisa entregar cresce e fica mais organizada. Empresa em que cinco funcionários do mesmo setor trabalham cada um de um jeito cresce e multiplica a diferença.
Se eu sou organizado, quanto mais eu cresço, mais organização eu tenho. Se eu me acostumei a ser padronizado, quanto mais eu cresço, mais padronização eu vou ter. Mas se eu sou bagunçado e eu cresço, vai crescer o quê?
Campa
Cris compara com levantar uma parede pondo um tijolo em cima do outro de qualquer jeito: ela fica de pé, mas pode rachar e cair. "O crescimento ordenado é que faz a empresa ficar bem, e o crescimento desordenado é que faz a empresa deixar o dono doente", diz.
Por que uma empresa boa precisa crescer
Nada disso é argumento para ficar pequeno. Campa defende que crescer deveria ser a preocupação número um de todo empresário. Quem tem um bom produto precisa levá-lo a mais gente, porque em todo ramo existe o concorrente que entrega mal e vende bem. "Quando eu, empresário, não estou preocupado em crescer, estou dando espaço para as pessoas ruins crescerem", afirma.
Cris conta que os dois poderiam ter ficado na cidade onde moravam, com a primeira turma de empresários que ajudaram. "Eu sei o quanto é ruim você estar lá apagando incêndio", lembra. E completa: "Se eu não estiver lá nada anda, nós éramos assim também".
Quanto custa adiar um erro que você já conhece
Dá para consertar uma empresa que cresceu errado? Campa diz que sempre dá, e que fica mais difícil a cada dia de espera. Ele traz um caso que chegou pela equipe: um empresário perdia R$ 20 mil por mês em uma tarefa executada do jeito errado, e sabia disso. São R$ 240 mil por ano. A cada quinze dias de decisão adiada, mais R$ 10 mil no lixo. Se o faturamento dobrar sem a correção, a perda dobra junto. Não melhora sozinho, diz Campa: quanto antes se conserta, antes o sangramento para.
Problema financeiro quase nunca é financeiro
Cris faz um alerta sobre os empresários que chegam dizendo que estão com problema financeiro. Não são iniciantes: são empresas de 10, 20, 50 anos, algumas na terceira geração. E a origem, diz ela, não é financeira. Para Campa, o financeiro é só onde o problema aparece, e ele não surge do dia para a noite.
Ele chama a causa de sangramentos. O projeto orçado em dez horas que consome onze ou doze, porque o comercial não alinhou com quem executa. São perdas que não aparecem no DRE e que, numa empresa pequena, parecem pouco. "Você coloca um zero a mais no faturamento. Você vai ter um zero a mais nesse desperdício", avisa. Enquanto isso, o dono está no operacional, executando ou conferindo o trabalho dos outros, sem olhar para os alarmes que a empresa dá.
Cris conta o caso de uma empresa de engenharia que, por dificuldade de contratar, atrasou em quinze dias a entrega de um projeto grande. O pagamento atrasou trinta, faltou caixa e ela perdeu o cliente. Campa avisa que não conhece toda a história e levanta uma hipótese, a dependência de um cliente âncora: "Você está colocando todos os ovos na mesma cesta. Se der qualquer problema, vai dar ruim".
Não consigo contratar: o problema pode estar na vaga
Quando um empresário diz que não consegue contratar, Campa pede para ver a descrição da vaga e a descrição de cargos e responsabilidades. Geralmente não existem. No anúncio, encontra um engenheiro que faz projeto, vai à obra, paga conta e cobra cliente, por metade do que o mercado paga. Isso em empresas de 30, 40 funcionários.
"O bom escolhe onde vai trabalhar. O outro é escolhido", resume. Cris diz a mesma coisa de dois jeitos. O bonito: falta de clareza. O direto: "Ninguém quer trabalhar numa empresa zoada".
Equipe que espera ordem foi treinada assim
Campa sugere um teste. Chame, em separado, três pessoas que ocupam o mesmo cargo e pergunte a cada uma por que ela está ali. Virão três respostas diferentes, quase sempre ligadas à tarefa: atender telefone, vender, cobrar. A pessoa sabe o que precisa fazer, não o que precisa entregar.
Para Cris, a empresa vira uma creche: adultos agindo como crianças, à espera de ordem. Na mentoria de líderes que conduz, vê encarregados e gerentes mais preocupados em buscar soluções do que o próprio dono. Campa vai além e diz que equipe infantil foi treinada para ser infantil. O treino, segundo ele, acontece assim:
- Não dar clareza do resultado que se espera de cada um.
- Microgerenciar, ditando cada passo do que fazer.
- Entregar a solução pronta sempre que alguém traz um problema.
- Cortar a iniciativa toda vez que alguém propõe algo.
O caminho contrário é devolver perguntas e pedir que todo problema chegue com opções de solução. "O papel do empresário não é resolvedor, é apoiador", diz Campa. Promover o melhor executor a gerente sem mudar essa clareza dá em um executor caro, com crachá de gerente.
A mudança na empresa vem de cima para baixo
Há um momento, lembra Campa, em que a profissão muda. "No momento que eu sentei na frente de um contador e disse 'abre uma empresa para mim, um CNPJ', a minha profissão mudou. Eu não sou mais aquele profissional, eu me tornei empresário." Para a profissão anterior a pessoa estudou. Ser empresário, ela quer improvisar.
Daí o risco de entregar a gestão a um sócio, a um diretor de multinacional ou a uma consultoria, sem se envolver. Campa conta o caso de uma cliente que contratava diretores assim: a pessoa montava processos, saía, e o setor voltava ao zero. Com a consultoria, o trabalho costuma acabar na gaveta. Quem conhece a história e o DNA da empresa é o dono.
A mudança numa empresa é de cima para baixo. Se você não mudar a tua mentalidade, não adianta querer mudar teus gerentes, teus diretores, teus funcionários, não adianta querer contratar consultoria.
Campa
Como saber se a sua empresa está crescendo errado
Organizar primeiro e crescer depois? Campa diz que são as duas coisas em paralelo. E deixa quatro sinais para o dono conferir:
- O seu tempo. Se a empresa cresce, deveria sobrar mais tempo para pensar e fazer o que é importante. Se está faltando, tem coisa errada.
- A sua semana. Liste tudo o que você fez na última semana. De um lado da folha, as tarefas da sua profissão anterior. Do outro, as de empresário. Se o primeiro lado for maior, a empresa está crescendo errado.
- O dobro. Se o faturamento dobrasse hoje, a estrutura comportaria?
- O limite. Quanto a empresa poderia faturar com a estrutura que tem? A resposta deveria vir de bate-pronto.
Quando a empresa cresce do jeito errado, quem paga é o dono, com o tempo que não volta. Cris lembra de um cliente que, no encerramento de uma turma, pediu desculpas ao filho por nunca ter tido tempo de tomar café da manhã com ele. Encolher a empresa não resolve, diz ela: "Não é diminuindo a empresa, é organizando ela para ela crescer de forma sustentável".
Campa fecha com a frase da pulseira distribuída no último encontro do Strats, que os dois tratam como mantra: "Se tá difícil, tá errado". Ser empresário, para ele, é desafiador. Não é para ser difícil.
Momentos do episódio
- 01:54 O pensamento equivocado: no dia em que eu crescer, tudo se resolve
- 09:59 O crescimento potencializa aquilo que a empresa já é
- 17:44 Os sangramentos que não aparecem no DRE
- 24:41 O risco de depender de um cliente âncora
- 37:45 Como se treina uma equipe para ser infantil
- 50:44 A mudança na empresa é de cima para baixo
- 58:46 Testes para saber se a empresa está crescendo errado
Para continuar no assunto, leia também Como Crescer a Empresa do Jeito Certo e Como crescer uma Empresa do Jeito Errado.
Se a sua empresa bateu no teto do crescimento e você não consegue ter a liberdade nem o lucro que quer, o convite do Campa no fim do episódio é solicitar uma Reunião de Diagnóstico com um especialista da Viva Positivamente. Agende a sua reunião.



