Sua empresa fatura bem. Então por que a conta não fecha no final do mês?
A empresa vende mais a cada mês, a equipe cresceu, o faturamento nunca foi tão alto. E, no fim do mês, fica a sensação de que o dinheiro sumiu. A origem é uma confusão que custa caro: tratar faturamento como se fosse lucro.
No podcast Pausa Estratégica, Campa e Cris recebem Aline Soaper e conduzem a conversa com o que veem todos os dias nos empresários que acompanham e com o que viveram nos próprios negócios. A convidada é educadora financeira, advogada e empresária, dona de quatro empresas. Abriu a primeira aos 17 anos, trabalha com educação financeira desde 2015 e veio de Orlando, nos Estados Unidos, para gravar pessoalmente.

Faturamento não é lucro
Campa começa pelo básico: o objetivo de uma empresa é ter lucro. "Tem muita gente que confunde faturamento", diz. O dono garante que a empresa está crescendo, mas está olhando o faturamento. "O faturamento aumenta mês a mês, e o lucro?"
Aline explica de onde vem o hábito: quem começa quase não tem despesa, tudo o que entra parece ser do dono, e ele se acostuma. Vendeu bem, compra um carro. Só que aquele dinheiro não era lucro, era o dinheiro da empresa.
Cris vê um motivo que vai além do desejo pessoal: o dono quer ser reconhecido pelo resultado. "Ele sangra o caixa da empresa, que deveria ser reinvestido na própria empresa, para comprar um pavilhão novo, para comprar uma sede nova", diz.
CPF e CNPJ no mesmo bolo
Campa tem um nome para essa mistura. "Tem muito empresário com 20, 30 anos de empresa, com uma equipe grande, já com um faturamento alto, que faz um negocinho que eu chamo CPF/CNPJ", diz. "É um bolo só." A escola do filho e a compra do mercado saem do caixa, e quando falta dinheiro na empresa a despesa vai para o cartão. Desse jeito, pergunta ele, como mapear o que é lucro?
Aline confirma: há quem conclua que o negócio não dá dinheiro quando o problema está nas retiradas.
Às vezes tem um CNPJ pobre para manter um CPF rico. Na verdade é o contrário: eu tenho que trabalhar, fortalecer minha empresa para ser um CNPJ rico, e eu vou usufruir daquilo.
Campa
Cris propõe um jeito de enxergar: o CPF dela é uma pessoa, o do Campa é outra, e a empresa entra "como se fosse uma terceira pessoa", a quem os dois prestam contas. É ela que paga o pró-labore, o salário do empresário.
Pró-labore é uma coisa, lucro é outra
O caso que Campa mais vê ele chama de sociedade de comadre: um sócio dirige e cuida do comercial, o outro executa, e os dois recebem o mesmo pró-labore. "Gente, está errado", diz. "Pró-labore é quanto você vale para a empresa." A régua é quanto custaria contratar alguém para fazer o trabalho de cada um. O ganho do empresário é outra coisa: a divisão de lucros.
Aline reforça que muita gente acha que toda sociedade é meio a meio, e dividir 50% de nada é fácil. Para Campa, muitos problemas nascem antes das finanças, na falta de alinhamento dos papéis. Cris completa: "O problema é quando eles param de conversar e cada um faz o que quer dentro da empresa".
Campa e Cris viveram isso numa fusão de cinco empresas em um CNPJ só. Um dos sócios disse que gostava mesmo era de programar e não queria tomar decisão. O combinado foi claro: ele teria como chefe um funcionário e ganharia menos do que esse chefe. Deu certo, conta Campa, porque ele entendeu o combinado.
Crescer por emoção custa caro
Aos 23 anos, Aline e o marido tinham uma loja de comunicação visual com fila de carros na porta e abriram um quiosque no shopping, onde ninguém parava para adesivar um carro. Cris faz a conta: o faturamento não aumentou, foi dividido, e a despesa dobrou.
"Isso é uma coisa que a gente vê todo santo dia", diz Campa. "O camarada tem um negócio, está indo bem, aí ele vai lá e abre um outro. E esquece muitas vezes que vai tirar dinheiro de um para pagar o outro, ou pior: esquece que aquele primeiro negócio depende dele para funcionar." Ter várias unidades, segundo ele, vira indicador de vaidade.
Ele conta o caso de uma participante do Strats, dona de uma escola de natação com capacidade para 300 alunos e 150 matriculados, decidida a abrir outro espaço na mesma cidade. Campa olhou os números e mostrou: parte dos 150 iria para a unidade nova, e ela teria três vezes mais custo para dividir os mesmos alunos. Aline concorda: quem está apaixonado só escuta quem apoia, e é o mentor quem fala a verdade.
Por que o dono evita olhar os números
Campa percebe que muito empresário começa a organizar as finanças, vai até um ponto e para de montar o DRE, de olhar para número. O motivo que ele encontra é o medo do confronto com a realidade. "Parece que quando você põe no papel, meio que materializa aquilo ali."
Ele conhece esse lugar. No primeiro negócio dele e da Cris, quando as coisas não iam bem, era mais confortável pensar que bastava vender mais do que olhar os números e descobrir um custo a cortar.
Dirigir uma empresa sem olhar para números é tipo dirigir um carro com uma venda. Uma hora você vai bater, não tem jeito.
Campa
Campa pergunta a Aline quantos empresários dos projetos dela fecham o DRE. A resposta: 85% não olham para isso, e dos 15% que fazem a maioria fecha só pelo caixa. O número bate com o de Campa e Cris. Campa costuma dizer que não existe faculdade de empresário, e Aline concorda: o caminho é buscar "um curso como o seu, como a sua mentoria".
As frases perigosas sobre dinheiro
Campa pede a Aline a frase mais perigosa sobre dinheiro. Para o empresário, diz ela, é "Tem dinheiro? Vamos embora". Campa faz a pergunta que vem antes: aquele dinheiro era do dono ou ainda era do fornecedor?
Ele prefere outra frase, que não é de autoria dele, mas que ele adotou: dinheiro não aceita desaforo. Aline devolve com a dela: "Despesa é igual a unha. Se você não corta, cresce". Quem corre lembra da unha quando calça o tênis, e Campa aproveita: "O tênis te lembra da unha comprida. E a empresa te lembra como da despesa comprida?" A resposta é o relatório, e olhar os números, para ele, é o mínimo da função de dono.
Entre sócios, vale o fato. Campa conta que ele e Cris não se entendem sempre, e que acha ótimo: "Às vezes eu chego com uma ideia mirabolante, passo para a Cris, a Cris me joga um balde de água fria". Ela pede dados para se convencer, e o contrário também acontece.
Os quatro pilares: gerar, cuidar, proteger e multiplicar
Campa pede que Aline apresente o método dela, de quatro pilares, que vale para uma criança e para uma empresa:
- Gerar. A empresa precisa pensar o tempo todo em geração de riqueza. É o motor do negócio.
- Cuidar. Quem gera e não cuida trabalha à toa. É a gestão: cortar despesa, acompanhar recebimento.
- Proteger. Contratos, registro dos funcionários, seguro. Sem isso, um único problema leva embora o que foi construído em anos.
- Multiplicar. Usar parte do resultado para reinvestir no negócio.
Os quatro trabalham juntos. O cuidar é o relatório que Campa manda olhar, e o multiplicar é o reinvestimento que Cris cobra de quem descapitaliza a empresa.
Para quem está endividado e para quem está bem
No fim, Campa pede duas orientações, porque tem aparecido muito empresário endividado. Para esse grupo, Aline diz que não existe dívida sem solução, que ela não acaba sozinha e que pede ajuda especializada. E alerta: a empresa continua vendendo enquanto a dívida é resolvida.
Para quem está bem, o recado é não esperar o problema aparecer: o financeiro faz parte da operação e precisa ter lugar na agenda do dono. Campa fecha: crescer, sim, mas do jeito certo, com lucro e também com liberdade.
Momentos do episódio
- 04:44 CPF/CNPJ: quando o dinheiro do dono e o da empresa viram um bolo só
- 06:46 A história do quiosque no shopping
- 13:09 Por que o dono começa a organizar as finanças e para
- 20:14 Pró-labore, lucro e sociedade meio a meio
- 28:52 Quantos empresários fecham o DRE
- 49:25 A frase mais perigosa sobre dinheiro
- 1:01:58 Os quatro pilares
- 1:06:11 Orientações para quem está endividado e para quem está bem
Para continuar no assunto, leia também Como Cuidar das Finanças da Empresa e Empresa não Lucra Como Deveria? Entenda o Porquê.
Se a sua empresa cresce e, quanto mais cresce, mais consome o seu tempo, o convite do Campa no fim do episódio é fazer uma Reunião de Diagnóstico com um especialista da Viva Positivamente. Agende a sua reunião.



