Sua gestão inspira… ou está boicotando o comprometimento da equipe?
O dono contrata, pega junto com a equipe e, mesmo assim, sente que ninguém veste a camisa. Repete que não tem gente boa para contratar e que, se ele não mandar, ninguém faz. A gestão do dono pode inspirar o comprometimento da equipe ou boicotá-lo sem que ele perceba.
No podcast Pausa Estratégica, Fernando Campanholo, o Campa, conta que uma das perguntas que mais ouve de empresário é como ter uma equipe comprometida. Para ele, a pergunta está virada. "A pergunta deveria ser: o que eu estou fazendo que não estou conseguindo comprometer a minha equipe, ou o que eu não estou fazendo?", diz. Cris aponta o desencontro: o empresário quer equipe comprometida, o funcionário quer um lugar legal para trabalhar. "Os dois querem, mas parece que não se conversam."

Como ter uma equipe comprometida
Campa começa pelo discurso de que falta gente boa no mercado. "Gente boa quer trabalhar em empresa boa", afirma. E empresa boa, aos olhos de quem performa, é mais do que produto ou serviço: tem gestão, cultura e processos.
O dono precisa saber que perfil de gente a empresa dele pede. Campa usa dois filtros:
- Descrição de cargos e responsabilidades. Vender, atender e emitir nota são tarefas. O que define o cargo são os resultados que a pessoa tem de entregar.
- Cultura. O jeito de ser da empresa, o que é importante para ela.
Quem passa pelos dois é a pessoa certa no lugar certo. O comprometimento vem depois e é trabalho do dono: ninguém contrata uma pessoa comprometida, contrata o perfil certo e, com as suas estratégias, compromete essa pessoa.
"Se eu não mando, ninguém faz"
É um comentário que Campa lê toda vez que abre o Instagram. A resposta dele é direta: "Só tem uma coisa para falar: você está fazendo errado". A frase revela uma empresa infantilizada, fruto da cultura do microgerenciamento: estar em cima das pessoas, criá-las para obedecer e perguntar tudo.
Ele chama esse modelo de empresa controle remoto. "Tem empresário que acha que o gerente é um controle remoto", diz: alguém para apertar os botões. Campa conta a conversa com um participante do Strats, dono de uma empresa com cerca de trinta funcionários, todos na mesma linha abaixo dele no organograma. Ele queria um gerente para um setor em que ninguém entregava resultado sem ordem. O gerente ficaria ali mandando no lugar dele.
Para Campa, é o caminho errado. Cada pessoa tem de saber que resultado a empresa espera dela, medido por indicador, e ter o processo que mostra como chegar lá. Aí o líder faz outra coisa: desenvolve cada um para entregar o seu melhor.
Cris explica o mesmo erro com a mochila de pedras. O dono começa carregando sozinho todas as responsabilidades. Quando cansa, contrata um gerente e entrega a mochila inteira. O peso só troca de ombro. O certo é distribuir as responsabilidades em pessoas e setores. "Cada pessoa da empresa tem uma pedrinha para carregar e não fica pesado para ninguém", diz.
A equipe é reflexo do dono
O dono que acredita que, quanto mais põe a mão na massa, mais exemplo dá, acaba formando gerentes iguais a ele: na execução. "Uma equipe é reflexo do dono. Não está contente com a tua equipe? Começa a não ficar contente com o teu jeito de agir, com o teu posicionamento", diz Campa.
Se eles fizessem tão bem como você, eles seriam donos de outras empresas, não estariam trabalhando para você.
Campa
A frase vai para o dono que quer gente que pense e aja como ele e contrata pessoas para fazer um pouco de cada coisa. Na conversa, o resultado ganha nome: funcionário pato. Campa descreve: "Não nada, não voa, não corre, não faz nada bem, porque tem que fazer tudo". Cris lembra do dia em que o profissional trocou o crachá pelo de empresário: "Quem só trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro".
Patrão pode ser amigo de funcionário?
Cris traz o caso de um empresário que aceitou ser padrinho do filho do melhor funcionário da empresa. Meses depois, o funcionário começou a errar e a criar conflito. Quando o dono foi conversar, ouviu que compadre não tinha o direito de chamar a atenção dele sobre o trabalho. Para Cris, ali o dono tinha a mesma voz que todo mundo e já não conseguia se posicionar como o responsável.
Campa parte de uma premissa: empresa é movida a resultado, e a relação justa é salário em troca de resultado. Ambiente leve e churrasco com a equipe cabem, desde que haja limite. "Você tem que ser líder, mas também tem que ser chefe", diz: desenvolver as pessoas e cobrar resultado. Na Viva Positivamente, a equipe é toda remota, e Campa não olha horário. Olha se o resultado está sendo entregue.
O que acontece quando o dono tolera quem não entrega
Campa imagina dez pessoas no mesmo cargo: nove performam, uma não, e o dono tolera. Com isso dá dois recados. Para quem tende a não performar, o de que não precisa, o salário vem igual. Para os outros nove, o de que naquela empresa não vale a pena se esforçar. Um dia o bom funcionário vai embora, e não é pelo salário. Cris completa: "Pessoa boa não tolera injustiça".
Existe também o que Campa chama de pseudocomprometido: o primeiro a chegar, o último a sair, o que faz o café de todos, e que entrega menos do que o cargo pede porque ninguém disse qual era o número. "Tem gente que faz com maestria aquilo que não deveria nem ser feito", afirma. O dono, atolado nas pequenas decisões do dia, não vê. "O operacional cega", diz Campa. O impacto aparece no fim do mês, no caixa.
Medo de cobrar e de perder funcionário
Muito empresário não cobra por medo de a pessoa sair e de não achar outra igual. Para Campa, é sinal de que a empresa não tem um processo claro de contratação. Quando ouve que na cidade não há profissionais, ele pergunta se existe ali um concorrente mais forte e se esse concorrente tem essas pessoas contratadas. "Não é que na cidade não tem, é que eles não querem trabalhar para você", conclui.
Campa defende contratar quem pensa na própria carreira, mesmo que não fique para sempre. "As pessoas não trabalham para uma empresa, elas trabalham para elas", diz. Ele fala por experiência. Aos 14 anos, com um curso de programação, foi contratado como programador por uma companhia de supermercados. Os colegas mais velhos passavam para ele as tarefas mais difíceis, esperando que fosse demitido. Uns oito meses depois virou chefe do setor e, mais tarde, gerente. "Eu não trabalhava para aquela companhia, eu trabalhava para mim. Como? Dando ótimos resultados para aquela companhia."
Como fazer a equipe pensar sozinha
Campa deixa uma prática para começar hoje. Quando alguém da equipe perguntar como fazer algo, ou se pode dar um desconto, o dono não responde: devolve a pergunta. O que você acha que deve fazer? Quais são as três melhores opções? Cris é direta: "Se o empresário não for treinador, ele é o fazedor".
Treinar vale até para quem chega sabendo, porque nenhuma empresa trabalha igual à outra. E setor precisa de dono. Na área comercial, que fica com a Cris, ele dá palpite, mas em decisão a resposta é uma só: "Fala com a Cris antes".
Quer ter pessoas comprometidas com a tua empresa? Faça a tua empresa ser comprometida com as pessoas que vão trabalhar com você.
Cris
Pessoas, processos e estratégia
Para a empresa funcionar sem depender de cada decisão do dono, Cris e Campa apontam três frentes: pessoas comprometidas, processos padronizados e estratégias de escala. O papel do dono, diz Campa, é tirar a empresa do ponto A e levar ao ponto B. Uma venda feita por ele dura um mês. Um roteiro que melhora a conversão de todo o time fica para sempre.
O recado final de Campa vem sem culpa: "A gente não nasce sabendo fazer gestão". O problema é repetir o jeito do amigo empresário que também carrega a empresa nas costas. "Se você quer realmente mudar o jeito de ser da tua empresa, comece por você. A mudança é sempre de cima para baixo."
Momentos do episódio
- 02:16 A pergunta que o dono deveria fazer
- 04:30 Os dois filtros da pessoa certa no lugar certo
- 10:38 A mochila de pedras
- 25:14 O dono que vira compadre do funcionário
- 38:41 Os dois recados de tolerar quem não performa
- 52:08 O primeiro emprego do Campa, aos 14 anos
- 1:02:46 Devolver a pergunta em vez de dar a resposta
Para continuar no assunto, leia também Como Liderar uma Equipe do Jeito Certo e Patrão e funcionário podem ter amizade?
Se você se reconheceu no dono que precisa mandar para as coisas acontecerem, o convite do episódio é fazer uma Reunião de Diagnóstico com um especialista da Viva Positivamente e olhar onde estão os gargalos da sua empresa. Agende a sua reunião.



