Quando o Líder Não Lidera, a Empresa Paga a Conta
Tudo passa pelo dono. A equipe pergunta tudo para ele e, quando dá problema, é ele que resolve. A saída parece simples: promover alguém a gerente e entregar o fardo. Só que o peso muda de ombro e a empresa continua travada.
No podcast Pausa Estratégica, Fernando Campanholo, o Campa, e Cris falam do papel dos líderes na prática. Campa começa pelo básico: processo não funciona sozinho, precisa de alguém preocupado em tirar o melhor de cada um. Cris, mentora de liderança do Strats, o programa em que os dois acompanham empresários na reestruturação da empresa, mostra o outro lado: líder sem processo só funciona ficando em cima de tudo o tempo todo. "Como é que alguém vai conseguir liderar alguém que não sabe para onde está indo?", pergunta ela.

Promover um gerente não resolve a sobrecarga do dono
O empresário sobrecarregado prepara um gerente ou um coordenador para assumir o fardo. Na leitura de Campa, o que ele quer nessa hora é um clone: antes só ele resolvia, agora tem mais alguém que resolve. Sem método, esse líder faz as coisas da cabeça dele. Pode dar certo, pode dar errado. "Para mim, isso é contar com a sorte", diz Campa.
Cris devolve a pergunta ao dono: se carregar tudo não era bom para você, será que vai ser bom para o seu braço direito? Os dois defendem dividir o fardo: cada pessoa com o seu papel, a sua responsabilidade e os resultados esperados. Campa resume a relação de contratação como "salário em troca de resultado".
A empresa não pode depender de pessoas
Tirar a dependência do dono e colocá-la em duas ou três pessoas não resolve. É assim que aparece o funcionário que avisa que sai amanhã se o salário não dobrar, e o dono acaba cedendo. Campa pede que o empresário anote:
Uma empresa não pode depender de pessoas. A empresa depende da empresa, do método de trabalho, não do que está na cabeça das pessoas.
Campa
Cris conta que já viu empresas com 80, 100, 200 funcionários em que o líder de um setor saiu e ninguém mais sabia fazer o serviço. Foi preciso recomeçar, como se aquele setor fosse uma empresa nova. Campa diz que isso acontece com frequência, porque o conhecimento fica na cabeça de quem lidera.
Os erros mais comuns ao promover alguém a gerente
Para Campa, o alinhamento sobre o que é liderar tem de partir do dono. Quem não sabe o que vai cobrar do líder já começa colocando a pessoa errada no lugar. Os dois critérios que ele mais vê são promover o mais antigo da casa ou o melhor executor. A pessoa fica feliz com a promoção e, no dia seguinte, está com crachá de gerente fazendo o mesmo serviço de antes. "Você vai ter um executor caro", diz Campa. O mais antigo e o melhor executor podem virar gerentes, ressalva ele. Só não pode ser o único critério.
Nas mentorias, Cris vê o líder recém-promovido sem querer se indispor com quem até ontem era colega. Sob pressão, vai para um de dois lados: o líder frouxo, que não quer brigar com ninguém, ou o carrasco, para quem a equipe só trabalha enquanto ele está na frente. Daí o teste de Campa, que vale também para o dono.
Você sabe se o líder é bom quando a equipe se comporta na presença ou na ausência dele do mesmo jeito.
Campa
O que acontece quando o dono diz "se vira"
Muitas vezes o empresário nem sabe direito o que pedir ao líder e resolve com um "se vira". Campa explica de onde vem isso: ninguém se prepara para ser empresário. "Uma coisa é administrar, outra coisa é ser empresário", diz ele. O dono vira um bom improvisador porque foi obrigado, se acostuma a tapar furo e espera o mesmo da equipe. Só que funcionário pressionado demais pede demissão.
É o que Campa chama de cultura do improviso. O que a reduz é processo com melhoria contínua: a empresa errou, apaga o incêndio, entende por que aconteceu e define o que fazer se acontecer de novo. "Um imprevisto pode acontecer uma vez só na empresa. Se acontecer uma segunda vez, é sinal claro de gestão fraca."
Qual é o papel do líder na empresa
Tudo começa por clareza de resultados: cada setor com indicadores e metas. Campa e Cris apontam duas responsabilidades para esperar de um líder:
- Guardião dos resultados. Na definição de Campa, o líder garante que os liderados entreguem os resultados do setor. Se não entregam, há um problema a entender: é ele, é o processo ou é a equipe.
- Guardião da cultura. É o segundo papel, nas palavras de Cris. Os líderes precisam remar para o mesmo lado, para que cliente e funcionário encontrem a mesma empresa em qualquer unidade.
Entregar resultado desvirtuando a cultura não serve, diz Campa. E ele deixa um aviso ao dono: quem tem o hábito de puxar para si o que é da equipe tende a formar um líder que faz igual. É o "deixa para mim que eu termino", o "deixa eu conferir". Na ânsia de entregar, esse líder cria pontos de trava, e o setor para quando ele não está.
Liderar, gerenciar e microgerenciar
Campa lembra uma fala de Cris de que gosta muito: o líder tem de ser dois em um, líder e gerente. "Líder que não lidera não serve para nada", afirma ela. Gerenciar, para Cris, é olhar os números e os processos e agir no dia 5 ou no dia 10, não no dia 30. Microgerenciar é ditar tarefa por tarefa, o que cria uma equipe que só faz o que é mandado.
Campa leva a mesma régua para o dono, que precisa ter os seus painéis de gestão. Se o resultado da primeira semana não veio, ele chama o líder e pergunta que correção está pensando. Cobrar é diferente de mandar se virar: "Temos um método, temos uma organização, temos estratégias. Traz para mim, vamos discutir". Cris conta o caso de um empresário que deu a um gerente de unidade a autonomia das compras, sem indicador nenhum. A loja faturava entre 300 e 400 mil por mês. Quando o dono viu, a dívida era de 800 mil, com estoque que não precisava.
Líder bonzinho não desenvolve a equipe
Entender de gente e gostar de gente é, para os dois, competência de líder. Campa compara o papel ao de um pai ou de uma mãe, que de vez em quando precisa cobrar. Cris é direta: "Ninguém gosta de trabalhar com gente fraca".
Ela conta uma passagem da época em que os dois tinham uma empresa de sistemas e ela, programadora, foi convidada a dar aula por seis meses em uma universidade. Um aluno muito bom entregou um trabalho final abaixo do que podia. Cris não aceitou e pediu outro para a semana seguinte. Recebeu o melhor trabalho, e o aluno agradeceu. Concessão demais custa caro: abre precedente, e os bons se incomodam e vão embora. Campa tem uma premissa para essas decisões: "Nós somos mais importantes do que eu ou do que você".
Promover alguém da casa ou contratar de fora
Sócio, com Cris, de empresas com milhares de funcionários, Campa diz que os dois sempre defenderam a mesma regra: "Valoriza a prata da casa". O caminho passa pela DCR, a descrição de cargos e responsabilidades, que diz o que se espera de cada cargo. A pergunta é se a pessoa é condizente com a DCR de líder.
- Reúna o time, apresente as responsabilidades e os resultados do cargo e dê prazo para quem se considera preparado vir conversar. Não imponha o cargo a ninguém.
- Deixe claro que a cobrança passa a ser pelo resultado de toda a equipe. Campa recomenda mostrar o cargo mais difícil do que ele é.
- Promova o mais condizente com a DCR. Se ninguém se candidatar, busque fora, com as mesmas exigências.
- Abra a vaga interna mesmo sabendo que ninguém está pronto. A equipe vê que teve a chance e aceita melhor quem vem de fora.
Cris acrescenta que quem vem de fora precisa internalizar a cultura antes. E o dono, diz Campa, passa a autoridade ao novo líder e não passa por cima dele depois.
Momentos do episódio
- 04:12 O dono que quer um clone
- 07:38 A empresa não pode depender de pessoas
- 09:22 Os dois erros na hora de promover alguém a líder
- 17:14 A cultura do improviso e o "se vira"
- 26:00 As duas responsabilidades de um líder
- 44:32 Gerenciar não é microgerenciar
- 1:06:19 Promover ou contratar de fora
Leia também Como Liderar uma Equipe do Jeito Certo e Como Delegar de Forma Eficaz.
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