Você não precisa de clones, precisa de método

· 7 min de leitura

O dono olha para a equipe e pensa que, com mais dez iguais a ele ali dentro, a empresa andava. Ele explica, cobra, e as pessoas parecem não enxergar o que para ele é óbvio. O que resolve é tirar da cabeça o jeito de pensar que trouxe a empresa até aqui, e não se multiplicar.

No podcast Pausa Estratégica, Fernando Campanholo, o Campa, e Cris recebem Paulo Pereira, engenheiro de formação que desde 2010 trabalha com consultoria e treinamento corporativo e é o criador do Método Extração. Campa o apresenta assim: ele extrai o que está na mente do dono numa parede de post-its e transforma em protocolos, ritos e indicadores. É vizinho do que Campa e Cris fazem com os empresários que acompanham: sistematizar o trabalho do dono.

Podcast Pausa Estratégica #019: Você não precisa de clones, precisa de método
Podcast Pausa Estratégica #019, com Paulo Pereira. Assista à conversa completa.

Ideia que fica na cabeça do dono não vira resultado

Campa abre com uma história. Tinha sociedade numa empresa de e-commerce e websites quando o Facebook foi lançado, e um dos sócios apareceu com uns cadernos onde havia anotado um projeto muito parecido. Um fez, o outro não. "Quantas ideias a gente vê perdidas por a pessoa não saber tirar da cabeça, não saber executar, não saber passar para as pessoas", diz.

Cris tem implicância com a palavra potencial. "Fulano de tal tem potencial. Sabe o que isso quer dizer? Que é uma pessoa que não executa", diz. Para ela, só se executa o que saiu da cabeça e foi para o papel.

O óbvio precisa ser dito

Paulo descreve a cena que vê quando senta com um empresário: ele cobra dos líderes aquilo que nunca falou. Campa devolve com uma frase que ele e Cris carregam: "O óbvio precisa ser dito também. O que é óbvio para você pode não ser óbvio para mim naquele momento".

Na conversa, a maior falha das empresas ganha nome: comunicação. O dono reclama que a equipe não ajuda a atingir os objetivos, e Campa pergunta se alguém comunicou a ela quais são. O mesmo vale para os números. Quando pergunta qual é o cenário ideal, Campa costuma ouvir "quanto mais, melhor". Ele pede o número de cada setor, cargo e processo. É assim, diz ele, que se faz gestão sem vigiar cada pessoa: "Olha os números. Se os números estão acontecendo, sinal que minimamente aquelas rotinas estão sendo executadas".

Qualidade e prazo não são diferencial

Cris ouve muito empresário dizer que o diferencial dele é entregar no prazo. "Isso é básico, isso é obrigação", diz. O que ele não percebe é "aquilo que é único dele e que é tão óbvio que ele nem acha que aquilo é diferencial".

Campa mostra onde isso pesa: na venda. O concorrente também diz que tem qualidade. Quem não mostra o seu mecanismo único, aquilo que está só na cabeça do dono, deixa o cliente com um ponto para comparar, o preço. "Não é porque o concorrente fez mais barato, é porque eu não mostrei o meu valor", diz.

O que o dono não pode delegar

Paulo levanta um ponto: nem todo fundador deveria estar na cadeira de CEO. Campa aceita a ideia e põe o limite.

Eu não posso delegar aquilo que é o indelegável, que são as estratégias do negócio. Por mais que eu esteja à frente de uma equipe comercial e coloque alguém para ser o CEO, a estratégia sempre é do dono.

Campa

Ele conta o que vê em empresa que fatura bem. O dono entra nos programas, descobre que vai ter de aprender sobre indicador e olhar números, diz que não gosta e chama o sobrinho formado em administração para tocar a empresa, enquanto fica fazendo o café. "Não tem sentido. O papel do empresário é olhar para o que está acontecendo na sua empresa e dar o rumo."

Cris fala em troca de crachá. Quem abriu a empresa para trabalhar nela nem sempre se dá conta de que passou a usar o crachá de dono. "No momento que você se coloca na posição de empresário, minimamente tem que saber o que o empresário deve fazer para tocar sua própria empresa", diz.

Treinar por osmose não funciona

Campa separa duas coisas: colocar o que está na cabeça do dono numa sistemática de trabalho, ou mandar o contratado sentar ao lado e observar. Paulo compara o segundo jeito às corporações de ofício medievais, em que formar um aprendiz levava anos. "Será que a tua empresa tem tempo para você treinar a pessoa por osmose por um, dois, três, cinco anos? E pior, e se essa pessoa sai?", pergunta. A quem deixa de treinar por medo de perder o funcionário, Campa responde: "Pior do que você treinar e a pessoa sair é tu não treinar e ela ficar".

Paulo traz um caso. Os sócios de uma empresa que multiplicou o faturamento por dez em um ano montavam as planilhas à mão e assim aprenderam o que mexia em cada número. Depois entregaram um painel pronto aos gestores, que não tinham feito esse caminho e não sabiam analisar os indicadores. A saída foi recriar para o gestor novo o cenário que formou o raciocínio dos donos. Campa tira a lição: "É muito comum empresário dizer assim: 'Vou contratar um monte de gerente competente e eles fazem isso para mim'". Não é bem assim.

Gente boa escolhe onde trabalhar

Campa separa dois tipos de empresário e avisa que a palavra não é ofensa. O medíocre é "o cara que está na média": paga as contas e não espera nada melhor. O acima da curva entende que o negócio é uma estrutura e precisa crescer. O que separa os dois, para ele, é o comportamento, e um sinal é o medo de contratar gente ambiciosa.

Ele conta que, numa das primeiras contratações para o comercial, perguntou ao candidato qual era o plano de futuro. A resposta: ter um negócio igual ao dele. Campa contratou, e o contratado teve um desempenho muito alto. Não abriu um concorrente e guarda gratidão até hoje pelo que aprendeu lá dentro.

Daí a pergunta que ele faz a quem reclama de não achar gente boa: "A tua empresa é uma empresa atraente para as pessoas que você quer contratar?". Quem tem planos escolhe onde trabalhar e foge da rotina de improviso. Vale para os mais jovens: há gente nova na equipe dele, com ótimo desempenho, porque encontra propósito. Cris fecha o ponto: "Clareza é a base de tudo".

Ninguém deveria ser insubstituível, nem o dono

Campa já quis os clones. Ele e Cris trabalharam 14 horas por dia, repetindo que não havia gente competente. "Eu sonhava: eu quero ter um clone do Campa aqui, vários clones. Para quê? Para fazer o que eu não gosto de fazer. Só que, se é meu clone, ele também não ia gostar." O que funciona é outra coisa: "Quando a gente consegue sistematizar o que está na cabeça das pessoas, eu não estou clonando pessoas, mas é como se eu estivesse replicando conhecimento, replicando habilidades".

Ninguém deveria ser insubstituível numa empresa, muito menos o dono. Se você toma decisões, se só você ajusta o que as pessoas têm que fazer no dia a dia, o dia que você não puder fazer isso, como que fica a empresa?

Campa

O risco não está só no dono. Campa conta o caso de uma empresa com faturamento acima dos 100 milhões. Quando faltava conhecimento em uma área, ela contratava um especialista, que montava a equipe. Depois, "ele sai e leva junto com ele, e aí a empresa reinicia tudo do zero". A orientação de Campa é extrair enquanto a pessoa executa, para o conhecimento ficar na empresa.

Paulo explica que pega um raciocínio que não é linear e dá a ele uma estrutura que outro consiga aprender. "O grande problema da comunicação é o subentendido. A pessoa subentende que aquilo era o certo, mas ninguém falou", diz. Cris concorda: "Eu penso que se está difícil, está errado". E pergunta: "Por que eu tenho que sofrer toda vez explicando a mesma coisa para pessoas diferentes?"

A mensagem final de Paulo foi anotada por Campa na hora: "Amanhã nunca vai ser um dia mais para a tua empresa ou para você como empresário. Amanhã é sempre um dia menos".

Momentos do episódio

  • 03:05 O caderno do sócio e as ideias que não saem da cabeça
  • 12:44 Qualidade não é diferencial
  • 17:09 O que é indelegável para o dono
  • 32:55 O empresário na média e o acima da curva
  • 48:14 O painel pronto que não formou os gestores
  • 59:42 Ninguém deveria ser insubstituível

Para continuar no assunto, leia também Como Delegar de Forma Eficaz e Processos na Empresa: Por que é Importante ter?

Se você carrega a empresa nas costas e sente que a equipe não enxerga o que precisa ser feito, o convite do Campa no episódio é fazer uma Reunião de Diagnóstico com um especialista da Viva Positivamente, que entende o que está travando a empresa. Agende a sua reunião.

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