Você é um Empresário-herói ou um empresário de verdade?
O dono chega primeiro e sai por último. Compra, paga, faz o café e resolve tudo o que a equipe traz. A empresa anda, mas não sobra tempo nem para a família. Esse é o dono que carrega o negócio nas costas.
No podcast Pausa Estratégica, Fernando Campanholo, o Campa, e Cris recebem Alderito Assis, advogado que se tornou empresário e já ajudou a transformar centenas de escritórios de advocacia. Campa explica o convite: ele e Cris costumam brincar que Alderito "faz o que a gente faz, só que para escritórios de advocacia". O convidado é autor do livro Empreendedor Improvável e tem hoje quatro escritórios. Na conversa, a dor do advogado e a do dono de empresa tradicional se mostram a mesma.

O que é o empresário-herói
Campa parte de uma definição. "Uma empresa é um ativo que te gera uma renda passiva, pelo menos deveria ser", diz. Muita gente vive o contrário: um passivo que só gera renda enquanto o dono está ali, pegando pesado.
É o que ele e Cris chamam de empresário-herói. O dono conta que abre a empresa, compra, paga e resolve tudo o que volta para ele. Campa dá os parabéns, você é um herói, o dono se enche de orgulho, e aí vem a pergunta.
Você sabe o que acontece com o herói em todo filme, toda história de herói? Ninguém ajuda o herói. O herói no final ajuda todo mundo, ninguém ajuda ele. É um herói solitário.
Campa
Do outro lado está o empresário de verdade, que Campa descreve como "aquele que tem gestão, que tem método, que faz as coisas acontecer". A empresa dele dá lucro sem consumir a vida de quem é dono.
Por que o dono vira o gargalo da empresa
Cris descreve o dono que é "o Google da empresa", o que mais sabe ali dentro. "Aquele que só executa não tem tempo para liderar, não tem tempo para direcionar a equipe", diz. "E se você não direciona a equipe, cada um faz do seu jeito e não do jeito da empresa."
Campa tira o peso da culpa. "Não é porque ela quer, é porque ela aprendeu assim", diz sobre quem erra. "Todo o sistema prepara a gente para ser mão na massa, ser operário." Em nenhuma profissão se aprende a contratar, delegar, cobrar e vender.
Para Cris, quem abre uma empresa troca de crachá. "Você trocou para o crachá de empresário e, a partir daquele momento, assumiu uma responsabilidade de fazer aquilo que você nem sabia que tinha que fazer." Ela e Campa passaram por isso. Abriram a primeira empresa aos 21 anos, gastaram as economias em mesa, cadeira e computador e só então viram que a sala não tinha lâmpada. O dinheiro tinha acabado.
"Ninguém faz tão bem quanto eu"
A equipe vai fazer tão bem quanto o dono? Talvez sim, talvez não. Campa propõe uma conta: sozinho, o dono faz dez atividades com resultado nota 10. Se treinar três ou quatro pessoas, cada uma faz oito atividades nota 8. "É melhor você sozinho fazer 10 ou você ter quatro, cinco pessoas que fazem oito?"
Alderito concorda: "Só existe uma forma de multiplicar o resultado, é construindo outras pessoas".
Ocupado não é o mesmo que produtivo
"Tem uma diferença muito grande entre ser ocupado e produtivo", diz Campa. Produtivo é o dono que olha para a operação, enxerga pontos de melhoria e oportunidades e vai lá aproveitar. O ocupado não repara se o cliente está sendo bem atendido nem na oportunidade que esse cliente trouxe.
É daí que vem a ideia de pausa estratégica. Campa compara com andar na multidão, enxergando um pouquinho para frente e um pouquinho para trás. Do alto de um prédio, a mesma rua mostra onde há trânsito e onde não há. "Eu consigo ter uma visão mais ampla", diz. O assunto rendeu discussão com o pessoal do Strats, o programa de reestruturação empresarial da Viva Positivamente. A conclusão: o dono não precisa estar na execução, precisa estar de olho no que acontece na operação.
Ninguém vira a chave do dia para a noite. "Eu não consigo ficar o dia inteiro no estratégico, tudo bem, mas eu vou ficar 10 minutos, meia hora, uma hora. É melhor do que nada", diz Campa. Cris observa que muito empresário não sai do operacional porque não sabe o que é o trabalho estratégico e imagina que seria virar as costas para a equipe. Para ela, é fazer aquilo que ninguém mais faz na empresa.
Doze, quinze anos sem férias
Campa pergunta a quem passou pelos programas de reestruturação qual foi o maior ganho. "Raramente as pessoas falam de dinheiro. Elas falam assim: agora eu tenho paz, agora eu tirei férias." Muitos estavam havia doze, quinze anos sem férias. Campa provoca: o dono paga as férias do funcionário e não liga para ele nesse período.
Cris conta que um empresário ouviu da psicóloga a pergunta "a tua família ou a tua empresa?" e escolheu a empresa. Para ela, essa escolha nem deveria existir. "Você tem o dever de organizar a tua empresa para ter tempo para a tua família, poder tirar férias e ter uma empresa que dá lucro de verdade sem acabar com a tua saúde."
Alderito viveu esse lugar: "Eu já fui um advogado que era escravo do meu negócio, não tirava férias e batia no peito com alegria". Cris olha mais longe. Um dia o dono vai precisar vender a empresa ou deixá-la para os filhos, e se tudo está na cabeça dele, o que ele tem é um lugar para trabalhar. Campa emenda: é um emprego, e o pior do mundo.
"Na minha cidade não tem gente boa"
Campa ouve muito essa queixa e responde com uma pergunta: quem é o forte da sua cidade, e ele tem gente boa? Tem. Então, diz ele, existem três motivos para uma empresa não conseguir contratar bons profissionais:
- A vaga é ruim. Ninguém quer aquela vaga.
- A vaga é boa, mas é mal divulgada. O jeito de apresentar mostra o contrário.
- A empresa não é boa. Em cidade pequena o boca a boca corre. Na empresa maior, o candidato percebe já na recepção.
O exercício é se colocar no lugar de quem você quer contratar e perguntar se trabalharia ali. Para Campa, a maior diferença entre o empresário-herói e o empresário de verdade é a autorresponsabilidade.
Se eu trago para mim, eu vou olhar qual é o meu erro, o que eu poderia fazer de diferente. Eu tenho chance de melhorar. Se eu culpo o outro, que gestão eu tenho sobre o outro?
Campa
O que o dono tolera vira recado para a equipe
Campa defende que empresa é um ganha-ganha, e não uma guerra entre patrão e funcionário. Salário, na prática, deveria ser pagamento por resultado. "Hora não garante resultado", diz. Alderito acrescenta que aquilo que o dono tolera vira cultura.
Quem aceita o funcionário que faz tudo errado dá um recado a todos, e outro, pior, ao comprometido: "o recado que ali ser bom, ser certo, não compensa". É esse que pede demissão dizendo que recebeu uma proposta um pouco melhor. Cris resume o que cobra dos empresários e dos líderes: "Se posiciona, coloca o que é certo e o que é errado dentro da tua empresa, fala para as pessoas".
O dinheiro é consequência
Colegas de grupos de empresários já sugeriram a Campa prometer um percentual de aumento de faturamento. Ele não promete, porque atrairia gente despreparada, que se endividaria por uma promessa. "A primeira mudança é você deixar de ser operário da tua própria empresa e se tornar o estrategista. O dinheiro vai vir, ele é consequência."
Cris usa uma pergunta para medir a base: se o faturamento dobrasse hoje, seria melhor ou pior? Muitos respondem que seria pior, porque a equipe não daria conta. Primeiro se arruma a base. E o ambiente pesa: na primeira empresa, de sistemas de gestão, Campa tinha uma roda de amigos em que todos diziam que estava ruim, e ele voltava para casa tranquilo. Só viu que não era assim para todo mundo quando trocou de ambiente. Alderito diz por que aceitou o convite: "Vocês vivem o que vocês ensinam".
Momentos do episódio
- 05:30 A roda de amigos e a mesa em que você é o menor
- 11:20 Pausa estratégica: olhar o negócio do alto do prédio
- 14:44 Fazer sozinho nota 10 ou ter uma equipe nota 8
- 20:05 Doze, quinze anos sem tirar férias
- 29:42 O empresário-herói e por que ninguém ajuda o herói
- 47:51 Três motivos para não aparecer gente boa
- 1:03:30 Por que Campa não promete aumento de faturamento
Para continuar no assunto, leia também Empresário de Sucesso ou Empresidiário? Descubra qual é Você. e Como Delegar de Forma Eficaz.
Se a sua empresa só anda quando você empurra, o convite do Campa no episódio é entender quais gargalos travam o negócio em uma Reunião de Diagnóstico com um especialista da Viva Positivamente. Agende a sua reunião.



