Sua empresa é um ativo de verdade… ou só funciona com você dentro?
Você não pensa em vender a empresa. Ela fatura, tem equipe, tem cliente fiel. Mas, se você passar dez dias fora, quem aprova, quem confere, quem resolve? Se a resposta for "ninguém", esta pergunta serve para você: a sua empresa é um ativo de verdade ou só funciona com você dentro?
No podcast Pausa Estratégica, Fernando Campanholo, o Campa, e Cristiane Campanholo, a Cris, partem de uma ideia que soa estranha a quem não quer vender: empresa vendável é um parâmetro. "Hoje eu não quero vender. Legal, mas e se eu quiser vender? E se eu precisar vender?", pergunta Campa. Para ele, empresa vendável é sinal de que o dono tem liberdade: para viver, para crescer e para fazer coisa de dono.

O que é uma empresa vendável
Vendável, na conversa, não quer dizer "à venda". É o termo que os dois usam para a empresa que não depende do dono para funcionar. Cris lembra que a venda nem sempre é para um terceiro: "Vender não é só vender para outras empresas ou para outras pessoas. É deixar para a próxima geração." Um dia alguém vai assumir, da família ou de fora, e a questão de Campa é em que estado o negócio vai ficar.
Para ser herança, diz ele, a empresa tem de ser o que uma empresa é para ser: "um ativo, um patrimônio composto por estrutura, equipe, maquinário, ferramentas, tecnologia, sistemática de trabalho que serve ao dono". Servir ao dono é ele dizer aonde quer chegar e a estrutura levar até lá.
A síndrome do empresário herói
Campa dá nome ao dono que está no centro de tudo: empresário herói. Equipe, tarefas, incêndios, decisões e aprovações giram ao redor dele. E conta que conhece esse lugar por dentro: "Eu já me orgulhei muito de ser empresário herói. Eu batia no peito: esse negócio não funciona sem mim."
O problema, para ele, não é o dono gostar de pôr a mão na massa. Cris conta que era programadora e que, em alguns fins de semana, ainda mexe em código por prazer. O problema aparece quando, sem o dono, o trabalho para. Campa dá o exemplo de um escritório de contabilidade: o dono sentar para analisar um balanço não tem nada de errado. Se ele não analisar e ninguém fizer, virou gargalo.
Operacional e operação não são a mesma coisa
Campa defende que o empresário não fique preso ao operacional, e faz questão de separar isso de largar a operação. Operacional é mão na massa, execução. Operação é a empresa funcionando: vender, entregar, comprar, pagar, cobrar, administrar. A equipe faz, e o dono garante que aquilo funcione do jeito certo. Contratar gente para tocar a empresa enquanto o dono some é outra história, e Campa diz que até hoje não conheceu um caso que tenha dado certo.
O critério dele é simples: "Tudo aquilo que eu tenho que fazer de novo é uma tarefa operacional." Venda, compra, cobrança, fechamento de caixa: mantém a empresa, não muda a realidade dela. Tarefa estratégica é a que se faz uma vez e mexe o ponteiro. No exemplo dele, quatro vendedores vendem 250 mil cada um. O dono ajusta o processo de vendas e a forma de negociar, e cada um passa a vender 350 mil. São 400 mil a mais, mantidos enquanto a equipe repetir o novo jeito de vender.
Quanto vale uma empresa que depende do dono
Campa e Cris contam que, anos atrás, foram ver uma pequena indústria de cosméticos cuja dona queria vender para se aposentar. Ao explicar o negócio, ela repetia "eu": a compra era com ela, as fórmulas dos produtos principais estavam na cabeça dela, os clientes maiores só ela atendia. Quando ela listou o patrimônio, Campa respondeu: "Tem um problema no teu patrimônio aqui. Está faltando a senhora." Ela se ofereceu para ensinar tudo, e ele recusou: "Não quero aprender. Eu quero comprar uma empresa que funcione."
Os dois não compraram, e segundo Campa a empresa não foi vendida até hoje. Sem a dona, sobrava o maquinário. A empresa em si não tinha valor. É a primeira pergunta de quem compra e vende empresas: esse negócio toca sozinho ou não? Campa e Cris contam que têm oito sociedades e que nenhuma depende de sócio para funcionar.
Cris traz outro caso: um empresário de 70 anos, com bom faturamento, clientes fiéis e equipe boa, que precisa estar na empresa todos os dias e dizia que ela funcionava bem. Campa corrige a premissa: "Se não roda sem o dono, não funciona bem."
O conhecimento precisa estar no CNPJ
O conhecimento tem que estar no CNPJ. Isto é uma empresa vendável.
Campa
Cris diz o mesmo com outras palavras: "O conhecimento deve estar na empresa e não na cabeça das pessoas." Estar no CNPJ, explica Campa, é tudo o que se faz estar formalizado, documentado, dentro de uma sistemática de trabalho.
Ele desfaz uma confusão comum: documentar a empresa não é ensinar profissão. Numa empresa de engenharia, ninguém precisa escrever como se faz um projeto elétrico, porque o engenheiro sabe. O que precisa estar escrito é o padrão da casa: onde se documenta, qual o prazo, como se organiza e como se entrega. Quando isso não está formalizado, alguém tem de ficar cobrando e conferindo. Em geral, é o dono.
Fazer processo é chato, e se faz uma vez
Cris provoca: "É chato fazer processo. Dá um trabalho do caramba." Campa concorda e responde que adulto não faz só o que gosta, faz o que é necessário. A escolha, para ele, é entre trabalhar muito por alguns meses para organizar tudo ou passar o resto da vida tendo de intervir, decidir e conferir.
Eu prefiro ter um grande esforço no começo e ter uma vida mais leve.
Campa
Ele conta o que vê no Strats: há quem passe dois ciclos, que são anuais, adiando. No terceiro resolve fazer, se empenha por três ou quatro meses e depois diz a ele: "Campa, eu devia ter feito isso lá no começo, três anos atrás." Cris compara com mudança de casa: encaixotar dá trabalho, um copo quebra, e ela pergunta se vale ficar no ruim por preguiça disso.
Por que contratar alguém para fazer por você não funciona
Campa e Cris recebem todos os dias pedidos de proposta para irem à empresa e fazerem os processos pelo dono. A resposta: "A gente não faz. Porque você vai rasgar dinheiro e depois vai dizer que não funcionou", diz Campa. O trabalho feito por alguém de fora, sem o dono, vai parar na gaveta: a equipe não executa e o próprio empresário é o primeiro a deixar de lado. Mudança grande numa empresa, diz ele, é sempre de cima para baixo.
Ajuda de fora, Campa recomenda: ele e Cris têm mentores, porque sai mais barato do que errar sozinho. O mentor orienta, e a decisão final é do dono. Escrever o documento é a parte fácil: no Strats, ferramentas de IA montam o processo dentro da metodologia. Difícil, diz Campa, é a equipe executar no dia a dia.
Os três pilares de uma empresa que não depende do dono
O primeiro passo, para Campa, é o dono mudar a percepção do próprio papel: "O teu papel não é ser funcionário da tua empresa. O teu papel é orquestrar tua empresa, estruturar tua empresa e fazer ela funcionar." Depois vêm três pilares:
- Pessoas comprometidas. Gente que entende por que está ali e o que se espera dela, e que se compromete com resultado, não com tarefa.
- Processos padronizados. As tarefas executadas de forma padronizada, no jeito de fazer da empresa.
- Escala. O que garante o crescimento sustentável: à medida que a empresa cresce, o dono reorganiza pessoas e processos.
Para Campa, quem faz bem o que faz tem de crescer, para não deixar espaço a quem faz mal. Só que a empresa que depende do dono cresce até um ponto, estagna e piora, porque exige cada vez mais dele. Com os três pilares, a empresa cresce sem crescer o esforço e o estresse do dono. Cris volta à família: muitos filhos não querem assumir o negócio porque não querem a vida que viram o pai e a mãe levar.
Momentos do episódio
- 01:48 Por que empresa vendável é um parâmetro
- 03:35 A síndrome do empresário herói
- 10:48 A diferença entre operacional e operação
- 17:06 A indústria de cosméticos que não foi comprada
- 29:09 O que é o conhecimento estar no CNPJ
- 32:54 Fazer processo é chato, e se faz uma vez
- 42:29 Contratar alguém para fazer pelo dono
- 54:53 Os três pilares: pessoas, processos e escala
Leia também Processos na Empresa: Por que é Importante ter? e Empresário de Sucesso ou Empresidiário? Descubra qual é Você.
Se a sua empresa cresceu e ainda para quando você não está, o convite do Campa no fim do episódio é fazer uma Reunião de Diagnóstico com um especialista da Viva Positivamente. Agende a sua reunião.



