Pare de viver no automático: suas escolhas definem seu negócio
O plano está pronto e o dono sai decidido a executar. Um mês depois, nada andou: apareceu um imprevisto, faltou tempo, a equipe não ajudou. Resta saber se isso é mesmo azar ou se é uma escolha feita no automático, sem o dono perceber.
No podcast Pausa Estratégica, Fernando Campanholo, o Campa, e Cris recebem dois convidados: Vanessa Cesnik, doutora em Psicologia pela USP, e Arcindo Negreiros, coronel do Exército e instrutor de voo, criadores do método Comando da Sua Vida. Campa leva o assunto para a empresa: existe a empresa que o dono comanda e existe aquela em que ele "é comandado pelas circunstâncias, pelas coisas que estão acontecendo".

Comandar não é controlar
Arcindo dá o gancho: "Muitas pessoas acreditam que comandar é controlar". Dentro do comando, diz ele, existe muito mais o delegar, e delegar é uma arte em que se aprende a confiar.
"O empresário precisa aprender a colocar algema", diz Cris. Quando a pessoa foi instruída do jeito que a empresa precisa e a cultura está internalizada, delegar é tranquilo. O difícil é outra coisa: "As pessoas têm mãos e as mãos querem fazer".
Campa lembra de uma frase que, na visão dele, muito empresário interpreta errado: é o olho do dono que engorda o boi. Ninguém está mais interessado no negócio do que o dono, ele concorda. "Mas o que é o boi que eu tenho que engordar? As estratégias, o negócio em si. Não é as pessoas, não é estar fazendo tudo."
Por que o dono não executa o que planejou
Campa conta uma descoberta dos últimos meses. Empresários entram nos programas dele e da Cris, recebem um plano de ações e, um mês depois, não fizeram nada. Os dois foram investigar caso a caso, e alguns responderam assim, nas palavras de Campa: "Eu vou para a minha empresa decidido a fazer, mas lá no fundo eu fico torcendo para que dê algum problema, alguma encrenca, para que eu vá resolver o problema e não ter que fazer isso".
Vanessa confirma que tem tudo a ver com as escolhas automáticas: o imprevisto dá ao dono uma saída honrada para não encarar o que precisava ser feito. Campa acha bom que se fale em escolha, e diz por quê.
Se eu sou causa dos meus problemas, tem um lado bom: eu sou causa da saída deste problema. Se eu sou consequência, eu tenho a impressão que eu me coloco no papel de vítima.
Campa
Medo, culpa e vergonha: três jeitos de travar
Os convidados descrevem três perfis de escolha automática, cada um ligado a uma emoção:
- Quem excede responsabilidade. É o cuidador, movido pela culpa. Assume o problema de todo mundo, não consegue dizer não e esgota a empresa.
- Quem se ocupa para fugir. Está ligado à vergonha. Diante do risco de ser julgado, arruma qualquer outra coisa para fazer, menos aquilo.
- Quem paralisa. É o perfil do medo. Tudo parece perigoso, então ele não assume a responsabilidade.
Cris traz um caso, sem citar nomes: uma empresária que sofreu uma ação trabalhista sem ter culpa. "Sabe qual foi a reação dela? Ficou um mês em casa sem ir para a empresa", conta.
A equipe não se compromete. E o dono?
No meio da conversa, Cris fala direto com quem veio ouvir sobre empresa e encontrou um papo sobre gente. Mesa, cadeira e computador são só o CNPJ. "Mas quem toca o CNPJ é gente. Então não tem como o CNPJ estar forte se as pessoas estão fracas dentro desse CNPJ."
Campa liga isso a uma das queixas que mais ouve: a equipe não se compromete, não faz. "Aí eu pergunto: e você? Qual é o teu comprometimento com a mudança, em fazer diferente?" É nessa hora que a conversa trava. "Muitas vezes ali eu estou lidando com uma fuga que eu nem percebi", diz.
Para ele, é o que separa a criança do adulto. A criança quer fazer o que gosta, e Campa vê muito empresário assim, que gosta de colocar a mão na massa e não gosta de gestão nem de liderar. "Eu tenho que fazer não só o que eu gosto, mas aquilo que é necessário."
O vício de ser útil
Campa conhece esse lugar por dentro. Na primeira empresa dele e da Cris, conta, "a gente ficou mais do que 15 anos ali carregando uma estrutura, carregando pessoas nas costas desnecessariamente, achando que era normal". Só depois ele entendeu o motivo: gostava de resolver problemas. Quando a equipe dizia que só ele conseguia, ele se sentia grande.
O dia que ele chama de mais vergonhoso da vida foi aquele em que chegou à empresa à tarde e descobriu que não havia nada para ele: a equipe tinha tudo sob controle. "E o que eu fiz foi cavocar problemas. Passei por todos os setores, falei com todos os gerentes, porque eu queria alguma coisa para eu resolver."
Vanessa aponta o padrão: ele sabotava a própria empresa porque era "dependente da sensação de ser útil". Campa acreditava que era admirado pela equipe, até descobrir duas coisas. Três ou quatro pessoas que nem deveriam estar ali riam pelas costas dele. Os bons, que vestiam a camisa e não conseguiam render porque ele não deixava, tinham pena.
Você tem pena de alguém que você admira? Eu passei a ser admirado quando comecei a permitir uma estrutura que funcionasse.
Campa
Para o dono com perfil de cuidador, diz Vanessa, a saída costuma ser tirar a mão: "Você quer dominar tanto a situação e resolver tudo que você não dá espaço para a empresa não precisar de você".
Ter resultado e não conseguir usufruir
Um cliente tinha fechado uma empresa saudável e já queria saber qual negócio abrir em seguida. Campa pediu calma e sugeriu que ele levasse a esposa para conhecer o país que sonhava visitar. O cliente respondeu que não tinha tanto dinheiro assim. Tinha ficado com 18 milhões. "Ele não se enxerga como merecedor daquilo ali, de poder usufruir", conclui Campa. Para Vanessa, das três emoções, a que pega o merecimento é a culpa.
Cris mostra o outro lado com uma manhã em casa: cada um fez o que queria, depois a família se reuniu em volta da piscina, conversou por horas e escolheu o restaurante aonde queria ir. "Para mim isso é liberdade", diz. Ela também lembra de um empresário que disse a eles: "Agora vocês tiraram o peso todo que eu tinha, minha empresa roda sem mim e eu perdi o sentido da minha vida".
O medo de fechar negócio grande
Campa conta que o pai, funcionário público a vida inteira, sempre o incentivou a fazer concurso. No começo da jornada como empresário, isso pesava. "Eu tinha dificuldade em fechar negócios grandes. Negócios pequenos eu fechava com facilidade. O grande eu travava." Ele chegava à porta do cliente, achava que estava tarde, deixava para o dia seguinte e perdia o negócio. A culpa, na cabeça dele, era do mercado e do concorrente. Depois, trabalhando isso, percebeu: "Eu tinha medo de contrariar o meu pai".
O caminho que aparece na conversa é se expor ao que trava. Campa tinha medo de altura a ponto de não chegar perto de sacada de prédio, e foi para o paraquedas. "O sucesso está em eu fazer coisas que a maioria das pessoas não quer fazer", diz.
Impossível, difícil e feito
"Tudo que a gente vai fazer, qualquer situação, tem três fases: impossível, difícil e feito", diz Campa. Quando começou a pedalar, o sonho era fazer uns 8 quilômetros, e parecia impossível. Na primeira semana, descobriu uma turma que fazia provas de 200. "Eu comecei a andar com pessoas que já faziam. Comecei a aprender o que elas faziam, ouvir essas pessoas." Fez a de 200, a de 300, a de 400 e a de 600.
Cris lembra que o efeito não para no dono. "Se eu melhoro a mim, eu, empresária, eu ajudo o meu sócio, eu ajudo a minha família, eu ajudo todos os meus colaboradores."
Campa fecha com a palavra de ordem do episódio, escolha, e deixa a pergunta para quem assiste: "O que você tem escolhido, não só para a tua empresa, mas para a tua vida?".
Momentos do episódio
- 05:06 Comandar não é controlar, e a algema da Cris
- 14:26 Por que o dono recebe o plano e não executa, e os três perfis
- 23:38 Quem toca o CNPJ é gente
- 28:23 Os 15 anos carregando a equipe nas costas
- 33:38 O cliente que não se via merecedor de usufruir
- 1:06:14 Impossível, difícil e feito
- 1:09:16 O que você tem escolhido para a empresa e para a vida
Para continuar no assunto, leia também É o Olho do Dono que engorda o boi? (Para Empresários) e Como o passado pode interferir no futuro da sua Empresa?
Se você sente que a sua empresa poderia render mais e não sabe exatamente o que está travando, o convite do Campa no episódio é fazer uma Reunião de Diagnóstico com um especialista da Viva Positivamente, para entender o que segura o crescimento. Agende a sua reunião.



