Jogo do Infinito: a mentalidade que separa empresas comuns das que crescem
O dono passa 10, 15 anos remando, com a empresa inteira passando por ele. Um dia decide arrumar a casa e quer resolver tudo em 30 dias. Existe uma diferença entre correr atrás do resultado rápido e jogar o jogo do infinito, o de quem melhora um pouco por vez e não para mais.
No podcast Pausa Estratégica, Fernando Campanholo, o Campa, e Cris recebem Euro Júnior, que Campa apresenta como um grande amigo: advogado há 18 anos, com escritórios em quatro estados e faturamento de oito dígitos, ex-corregedor federal e superintendente nacional de armazenagem na Conab, professor de gestão e escala para donos de escritórios de advocacia, com mais de 40 mil alunos e um método reconhecido como MBA pelo MEC. Campa resume o que os aproxima: Euro ajuda escritórios a funcionar melhor, "assim como a gente faz para empresas".

Não existe bala de prata para arrumar a empresa
"Jogue o jogo do infinito" é o bordão do Euro, e Campa pede que ele explique. Ninguém consegue melhorar tudo de uma vez, diz o convidado. O caminho é escolher uma frente e transformar a melhoria em rotina. "Tudo que importa na nossa vida você tem que fazer para sempre", afirma.
"As pessoas estão sempre buscando bala de prata, soluçãozinha mágica para resolver tudo", diz Campa. "Você não faz tudo de uma vez só, porque você vai enlouquecer, vai enlouquecer tua equipe e vai nos enlouquecer."
O resultado de um negócio é a soma dos hábitos que você tem. Pequenas mudanças, feitas consistentemente. Faz meia horinha por dia aquilo que tem que fazer, aquilo que você não faz. Meia horinha, até você pegar o hábito.
Campa
Ter empresa só para ter emprego é o pior emprego do mundo
Euro diz que o advogado acredita que ninguém faz tão bem quanto ele. Campa conhece essa crença. Um dos primeiros empresários que atendeu tinha uma fábrica com 40 e poucos funcionários. Numa visita de surpresa, Campa o encontrou na produção e ouviu que ele precisava trabalhar um pouco, que não dava para ficar só no escritório. Campa traduz: "Se eu não estou lá me sujando, literalmente colocando a mão na massa, eu não estou trabalhando".
Para ele, isso vem da formação. "Quando é que você aprendeu em direito a liderar pessoas, a fazer marketing, a delegar, a criar uma padronização? Não se aprende isso", diz ao convidado. Cris vai até a escola: "Lidar com pessoas, a gente não foi treinado. E são essas competências que faltam no dia a dia do empresário brasileiro".
Euro dá o gancho: existe "uma grande parcela do cara que tem um CNPJ para ele ter o emprego dele". Campa compara: o funcionário bate o ponto e tira férias, e o dono trabalha doente, porque se parar deixa de faturar. "Quem tem um negócio e pensa que é só para sustentar a família, para ter um autoemprego, tem que entender que tem o pior emprego do mundo."
Abriu o CNPJ, a profissão mudou
Campa abriu a primeira empresa com a Cris aos 21 anos, quando já tinha chegado ao teto de salário da região em que vivia. Foi estratégia. O ponto dele é o que vem depois.
Sentei na frente de um contador, abri um CNPJ, minha profissão mudou. Agora eu sou um empresário, então como empresário eu tenho que agir como empresário.
Campa
Agir como empresário, explica o ex-programador, é colocar estrutura, gente, recursos, marketing e tecnologia para trabalhar para o dono, e não ficar executando. Cris fecha o raciocínio: "A função real de alguém que abre uma empresa, um CNPJ, é aprender a ganhar dinheiro com o trabalho dos outros, não com o seu próprio trabalho".
Quando tudo na empresa gira em torno do dono
Campa pergunta ao Euro qual é o envolvimento dele hoje nos negócios e ouve que ele acompanha indicadores e conversa todos os dias com os líderes. Perguntou de propósito, para mostrar o contraste. "97% dos donos de empresa, não interessa o ramo, não interessa onde eles estão", diz, têm a estrutura de um sistema solar, com o dono no lugar do Sol. Ele tem líder, mas o líder mais executa do que lidera. Passa o dia resolvendo pepino e termina orgulhoso. "Foi ocupado, mas não foi produtivo." O estrategista, para Campa, olha os números e olha para fora: "As grandes oportunidades de uma empresa não estão internamente".
Ele conhece esse lugar. No começo da primeira empresa, ele e Cris achavam que um dia pagariam bons salários, contratariam gente capaz e tudo se resolveria. "15 anos depois a gente tinha uma equipe bem estruturada, gente que ganhava mais do que eu, gerentes extremamente qualificados e adivinha? Eu preso 14 horas por dia no operacional do negócio. Eu era o sol do meu sistema solar." Cris descreve o efeito: o dono não aguenta a demanda e vira o freio de mão puxado do crescimento da própria empresa.
Sair do operacional sem se afastar da empresa
Euro conta que, mesmo como CEO, chama gente da equipe para conversar. Campa aproveita para marcar uma distinção que defende: o dono tem que sair do operacional, e isso não é sumir do negócio. "Eu preciso saber o que está acontecendo na minha empresa, o que os clientes estão percebendo, o que a minha equipe está percebendo, o que os meus fornecedores estão percebendo. Afinal, a parte mais interessada sou eu." É o olho do dono, só que "no lugar certo", sem ficar em cima das pessoas nem fazer no lugar delas.
O erro oposto é largar a gestão no colo de alguém e ir embora. Na conversa, a regra ficou assim: não se delega o indelegável. Cris lembra que cultura e jeito de trabalhar não vêm de fora, vêm de cima para baixo.
Como segurar os bons funcionários
Campa recebe com frequência a pergunta: vale a pena dar sociedade a um funcionário para não perdê-lo? "O verbo já está errado", responde. Quem ganhou a parte sem pôr dinheiro nem esforço, na primeira queda de faturamento, pede que o dono a compre de volta. Ele elogia o modelo do Euro, em que o prêmio por resultado pode virar dinheiro ou participação.
Ao empresário que reclama que os bons vão embora, Campa devolve outra pergunta: "E se você fosse bom, você ficaria na tua empresa?" Ele foi CLT até os 21 anos e lembra o que o fazia ficar: ambiente bom, cultura boa, desenvolvimento e reconhecimento pelo resultado.
"Não tenho tempo para organizar a empresa"
É o Euro quem pergunta aos dois como eles quebram uma objeção: não tenho tempo para aplicar a metodologia de gestão. Campa responde com uma cena. No pior dia da empresa, aparece um fiscal exigindo documentos até o fim do dia, sob pena de uma multa de R$ 500 mil. O dono diz que não tem tempo ou larga tudo e providencia? "Tempo é uma questão de prioridade. Quando você coloca prioridade, você faz."
A dose é a mesma do começo da conversa: "Meia hora fazendo diferente, com constância, é melhor do que parar uma vez na semana e ficar o dia inteiro, porque eu formo um hábito". E quando termina de organizar os processos? "Quando você parar de crescer."
Empresa que depende do dono não é um negócio
Perto do fim, Campa traz o olhar de investidor, que ele e Cris também são. "Uma empresa é um bem. É um ativo", diz. Certa vez ele foi conhecer uma fábrica que a dona queria vender para se aposentar. Ela explicou a operação e Campa só ouvia "eu": eu compro, eu produzo, eu visito os clientes. Havia 17 ou 18 pessoas na empresa, mas o que importava só ela fazia. Ele olhou a relação de bens e apontou o que faltava: o nome dela. "A senhora não tem um negócio. A senhora tem uma operação que depende da senhora." Isso faz uns oito anos, conta Campa, e a empresa não foi vendida.
"CPF tem data de validade", diz Cris. Empresa, não: "Nenhuma empresa morre. Ela não tem data de validade. Ela é assassinada". E Campa deixa uma comparação: criar uma empresa sem gestão, para depender do dono, é como criar um filho que não foi preparado para o mundo.
Momentos do episódio
- 02:24 O que é jogar o jogo do infinito
- 22:47 O pior emprego do mundo
- 31:56 Dar sociedade a um funcionário para não perdê-lo
- 40:00 O dono como sol do sistema solar
- 45:11 Sair do operacional e seguir acompanhando o negócio
- 56:05 A resposta para "não tenho tempo"
- 1:06:16 Empresa é um ativo: a fábrica que não foi vendida
Para continuar no assunto, leia também É o Olho do Dono que engorda o boi? (Para Empresários) e Empresário de Sucesso ou Empresidiário? Descubra qual é Você.
Se gestão é o gargalo e você não sabe o que impede a sua empresa de crescer sem depender tanto de você, o convite do Campa no episódio é fazer uma Reunião de Diagnóstico com um especialista da Viva Positivamente. Agende a sua reunião.



